194. Ela era louca assim... | #5

   Era uma daquelas tardes nubladas em que o céu assume tons de cinza tão claros que é inevitável alimentar esperanças de que, em algum momento, o tempo vire. Abaixo de mim o movimento escasso entrega a quarta-feira e traz no ar monotonia. Com um copo em mãos, já ignorado devido aos devaneios, meus pensamentos fluem em direção à composição urbana que tenho como paisagem, quase uma fotografia envelhecida de dias melhores. Surge em mim a certeza de suas contradições, a mescla do nativo ao artificial: progresso e regressão ocupando o mesmo espaço. O vivo do rosa junto ao intenso do verde contra o pálido o azul e o sem graça do cinza; a paleta de cores de mim, escorada à madeira fria, vagando por reflexões irrelevantes. 
   Se toda escolha é um reflexo de quem somos, a vista que tenho - escolhida sem pestanejos - fala sobre mim tudo que há para ser dito. Sou avenidas de transeuntes desapercebidos em busca de lembretes que lhes faltam, conversas banais e passo lento. Sou a ciclovia vazia e desbotada que limita minhas raízes mais profundas. Sou o barulho insistente de carros ao longe, estabelecendo barreiras que impõe minha natureza: eu aqui, ela lá. Sou a copa vibrante das árvores frondosas e o cinza sem vida que, impaciente, prepara meus moldes. Sou tardes em que a luz se manifesta por esparsos resquícios, carregando a atmosfera com a sua ausência. Sou as águas calmas e os mares ao longe, que findam minha abrangência e me fazem querer ir além. Sou a extravagância contida nesse quadro sem fim, que esmorece mesmo o mais exuberante dos componentes. 
   Suspiro devagar. Pisco algumas vezes. 
   Consternada, dou as costas ao mundo lá fora para entrar de vez no mundo aqui dentro. O copo fica na beirada da janela, abandonado espectador do que não lhe cabe. Sob a débil iluminação monocromática, me entrego ao imaginário, tragada pelas realidades incoerentes que me mantém em mim.

Jella
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Criação literária e escrita como prática diária | #4


"It is only by writing, not dreaming about it, that we develop our own style." (PD James)
   Desde que me entendo por gente o sonho da minha vida é escrever: escrever sobre o que vejo, sobre o que sinto, sobre o que imagino, sobre o mundo ao meu redor e aqueles que vivem em mim. Sou apaixonada pela intensidade que as palavras criam, por quão imersivas elas se mostram e por quão convidativas soam as ideias intrincadas que expressam. Empolgada por exercitar minha criatividade e crente fervorosa de que, como disse PD James, é apenas escrevendo, não sonhando com fazê-lo, que desenvolvemos nosso estilo de escrita e aprimoramos tal habilidade, resolvi começar um desafio de criação literária. A ideia surgiu depois de encontrar o 642 things to write about: um livro interativo que propõe ao leitor escrever sobre 642 situações, temas ou sugestões quaisquer. Pesquisando mais, descobri uma lista traduzida com mais de 300 dessas sugestões e um grupo no facebook intitulado 642 coisas sobre as quais escrever: uma comunidade de autores que diariamente compartilham suas produções, a partir do sorteio aleatório de números dessa listinha (que está disponível aqui). Curiosa por ver como me saio escrevendo sobre temas surpresa e sempre em busca de me melhorar, cá estou para oficializar esse desafio. Por mais que escrever sobre o cotidiano me traga conforto, criar é um tanto mais libertador, logo os textinhos postados por aqui referentes a esse projeto serão, em sua maioria, contos e inícios de narrativas fictícias que me surgirem à cabeça (qualquer semelhança com a realidade que nos cerca é pura coincidência). 
   O site que escolhi usar para fazer o sorteio é o Sorteador (e o primeiro tema do projeto é o de número 194, cujo resultado sai na terça-feira #staytuned). Por hoje, como esse post inicia uma série de relacionados, decidi reunir aqui indicações interessantes sobre escrita criativa: artigos, livros, vídeos e links que me inspiram e auxiliam na tarefa de lapidar minhas criações e fazê-las tão tocantes e vívidas quanto desejo que sejam.
   A começar por artigos (olá, Medium!), esse e esse são dois adoro, por trazerem dicas que abrangem o processo de escrita como um todo (da ideia à revisão) e por abordarem a criação literária como algo possível e físico, ao invés de puramente abstrato e inalcançável. Escrever é prática, é exercício, é disposição. É importante que tenhamos em mente que todo autor estuda escrita, que todo autor tem seus mestres e necessita aprender certas lições que garantam o aperfeiçoamento de seu trabalho. Apesar de ser sempre incrível escrever durante momentos de extrema inspiração e foco, precisamos separar esses momentos raros do cotidiano real de um escritor. Inspiração existe sim, mas só dedicação e persistência constantes te farão mais seguro, produtivo e realizado com os teus escritos.
"It’s a simple and generous rule of life that whatever you practice, you will improve at." (Grande magia, Elizabeth Gilbert)
   Sobre isso, inclusive, um canal sensacional no YouTube é o do autor Henry Alfred Bugalho, que compartilha não apenas as maravilhas e dissabores de seu cotidiano, como também oficinas e práticas para nos incentivar a produzir mais e aprender sempre. O link para o canal é esse aqui.
    Quanto a livros, dois que são grandes lições de criatividade (que é a nossa matéria-prima) são Grande Magia, da autora Elizabeth Gilbert e Palavra por palavra, da autora Anne Lamott. Apesar de em Grande Magia o foco não ser escrita criativa, como Elizabeth é autora em tempo integral muito da rotina dela enquanto artista é passada para nós através das dicas e pensamentos compartilhados. O livro parece mais uma conversa que uma leitura propriamente dita. Palavra por palavra, por sua vez, é uma oficina de criação literária em capítulos somado a guia de como ser um artista. O livro engloba assuntos que vão desde o momento em que nos percebemos escritores, até a publicação de nossas histórias. Anne fala sobre sua trajetória, as dificuldades até que se consiga estabelecer no meio, os questionamentos que acompanham cada produção e truques que podemos utilizar para nos afirmarmos mais e mais como autores que somos - tanto frente ao mundo quanto frente a nós mesmos.
"But how?" my students ask. "How do you actually do it?"
You sit down, I say. You try to sit down at approximately the same time every day. This is how you train your unconscious to kick in for you creatively. So you sit down at, say, nine every morning, or ten every night. You put a piece of paper in the typewriter, or you turn on the computer and bring up the right file, and then you stare at it for an hour or so. You begin rocking, just a little at first, and then like a huge autistic child. You look at the ceiling, and over at the clock, yawn, and stare at the paper again. Then, with your fingers poised on the keyboard, you squint at an image that is forming in your mind - a scene, a locale, a character, whatever - and you try to quiet your mind so you can hear what that landscape or character has to say above the other voices in your mind." (Palavra por palavra, Anne Lamott)
   Uma série incrível para acompanhar o processo criativo e a batalha diária que é lapidar ideias é Jane the virgin, uma original Netflix, que tem como inspiração as telenovelas mexicanas (recheada de drama, espanhol e romance). O seriado é uma baita indicação seja você aficcionado por escrita ou não, mas se é te digo que Jane é nossa representação fiel. Ela tem de equilibrar seu sonho de escrever, com um emprego formal, faculdade e filho, o que para muita gente é a realidade: por mais que queiramos fazer da escrita rentável, enquanto ela não o é, há muito a fazer funcionar junto para que possamos nos dedicar a esse ofício. Conforme Jane escreve suas histórias somos apresentados a seus personagens, a seus enredos e a suas motivações por um narrador que é outro ponto alto em Jane the virgin.
   Para finalizar, conteúdo disponibilizado por agentes literários e profissionais do mercado editorial são de enorme ajuda. Sites, newsletters, oficinas, fóruns... Eu acompanho vários e diariamente descubro outros muitos. Há para todo gosto, todo tipo de escrita, todos os gêneros e nichos literários que se possa imaginar. Alguns dos meus favoritos são: Escreva sua história, Vivendo de inventar, Well-storied, Metamorfose e Nano.
   Espero, de coração, que essas indicações te incentivem a apostar nas tuas palavras, como pretendo com esse desafio de escrita. Se tiver indicações a compartilhar, não deixa de compartilhar comigo nos comentários. Vou adorar conhecer!

Jella


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Uma coleção de links para (re)visitar | #3


   Quem não coleciona artigos e links interessantes para revisitar, que atire o primeiro mouse.
   A aba de favoritos do meu navegador está sempre tão lotada de links que me vejo obrigada a fazer seleções de tempos em tempos. Esse post é minha ideia mais recente de filtro e, espero eu, um lembrete eficiente do tanto de coisinhas legais que coleciono no tempo que passo conectada. Não há qualquer categorização por aqui: apesar de certos artigos serem similares a outros a ideia é colecioná-los reunidos nessa mistura.
   Comecemos por esse post gracinha que reúne ilustrações lindas do artista Pascal Campion retratando de modo super delicado momentos do cotidiano ao qual deveríamos dar mais valor. Ó aqui alguns sketches lindinhos que ele publica no blog que mantém:


   Gostou? O artigo é do site Tudo Interessante e o link é esse aqui. Através das redes sociais ele também compartilha um pouquinho do trabalho lindo que faz, então facebook, tumblr e twitter também valem muito os respectivos cliques.
   Outros três ilustradores que descobri recentemente e não canso de acompanhar são a Diéssica, a Cassandra e o Cameron. São tantos desenhos incríveis que eu não consigo apontar favoritos.
   Quanto a audiovisual, tenho três links incríveis a compartilhar. O primeiro é o podcast Portrait of a Freelancer, produzido pela Ariel Bissett. É impressionante quão fluída é a fala da Ariel: já acompanho os vídeos do canal literário há anos pelo tanto de reflexões interessantes e interação que ela proporciona por lá, de modo que descobrir outro meio de ouvi-la e saber mais da rotina criativa que mantém muito me inspira. Adoro o modo realista como ela expõe seus pensamentos e dialoga com os ouvintes. Vale muito a pena escutar, seja você freelancer ou não.

   Outra youtuber querida que mais uma vez me deixou de coração quentinho foi a JoutJout. É inacreditável como Júlia consegue conversar comigo. Nessa coleção de links cabe tranquilamente o canal inteiro como recomendação, mas para ser um tantinho mais específica, selecionei esses três vídeos aqui, aqui e aqui em que ela fala sobre ansiedade, realização profissional, foco, padrões e sociedade. Fico embasbacada diante de quão certeira ela é ao abordar temas que afligem imensamente. Assistam, assistam e assistam!
   Além de vídeos e áudio, fotografias têm sido um dos meus maiores referenciais. Sei bem pouco sobre fotografia profissional e, infelizmente, não sei clicar fotos tão lindas quanto as que admiro, mas todo o meu amor e reconhecimento vai aos profissionais e amantes dessa arte que tenho encontrado pelas redes sociais. Deixo aqui linkadinhos os perfis do Guilherme Rossi e Leandro Walicek, cujas fotografias me deixaram sem palavras. Do ângulo às cores, a profundidade que cada registro passa é de arrepiar. Separei alguns dos cliques deles para compartilhar por aqui, mas lá no insta vocês encontram muito mais:


   Como vegetariana e amante de culinária que sou, também saio colecionando receitas sempre que elas me abrem o apetite. Duas das que mais gostei (e que ficaram tão deliciosas como prometido) são a torta vegana de chocolate, publicada pelo blog Vai comer o quê? e a conserva de cogumelos, postada pelo site Sabor Sonoro que acompanha bem qualquer comidinha.


   Para encerrar, e como não poderia deixar de ser, tenho textinhos (e uma listinha) a compartilhar com vocês. Começando pela listinha (olá, Buzzfeed!), salvei essa por ter me identificado muito. Somos constantemente levados a acreditar que relacionamentos são o auge de nossas vidas, o momento pelo qual devemos ansiar e para o qual devemos nos preparar todos os dias na busca por oferecer o melhor de nós e fazer com que dure tanto quanto possível. Afinal, quando acabar o que será de você? Eu não poderia discordar mais desse pensamento coletivo. Ao longo dos últimos anos tenho buscado compreender melhor a mim mesma e isso inclui aprender a ficar sozinha, me bastar e apreciar minha própria companhia... Me ver como um ser humano inteiro, completo, merecedor. A listinha é compatível com esse exercício tão necessário porque apresenta dicas de locais e eventos aos quais todos deveríamos ir sozinhos ao menos uma vez. Prometo que a experiência é transformadora!
   Sobre carreira e futuro, dois me chamaram muita atenção: esse da jornalista Mariana Kalil, que fala sobre aceitarmos mais a nós e ao nosso ritmo, e esse da Loui, publicado no Casal sem vergonha, que fala sobre realização profissional. Ambos me fizeram pensar bastante, respirar fundo e ter mais coragem para enfrentar todas as dúvidas que permeiam meus pensamentos.
   Por fim, Medium. Que plataforma sensacional! Faz pouco tempo que registrei uma continha e a cada dia me vejo mais encantada pela qualidade dos textos publicados. É impressionante quão reflexivos e inteligentes são os conteúdos e quão dedicados são os autores que se propõe a escrever por lá. Foi muito complicado eleger apenas seis textinhos para compartilhar nesse post, mas enfim cheguei a um consenso comigo mesma (de todo modo vou deixar aqui linkadinho o meu perfil, onde salvo todos os meus favoritos conforme leio). Os que selecionei para essa coleção são os seguintes: 1 (sobre blogosfera feita por amor, não obrigação), 2 (sobre o mal de uma juventude que se vangloria por fazer o básico), 3 (sobre aprender a ter disciplina para conquistar objetivos), 4 (sobre a busca desenfreada por satisfação externa para suprir o vazio que nos habita), 5 (sobre quão necessário é que continuemos a contar histórias) e 6 (sobre reconhecer que não sabemos nem precisamos saber de tudo).
 E vocês aí, tem algum link queridinho a compartilhar? Eu vou adorar visitar.

Jella


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Quando começamos a viver? | #2


 
    Alguns dias atrás, no ônibus a caminho de casa, estava eu (mais uma vez) questionando minhas escolhas: afinal, estou no caminho que leve à realização pessoal que tanto almejo?
   Para mim, apesar de qualquer dúvida ou incerteza que pudesse surgir, o período pós-ensino médio seria de tranquilidade por estar mais próxima de atingir meus objetivos. É com certo pesar que escrevo que não experienciei essa sensação nem um dia sequer de lá pra cá. A verdade é que comecei o meu primeiro ano de graduação já pensando no passo seguinte, e desde então é como estou: sem aproveitar o que me acontece no presente, direcionando energia e esforços em para onde ir a seguir. Talvez seja imaturidade minha, falta de experiência para lidar com as pressões do mundo; uma causa palpável: com 21 eu não esperaria saber gerenciar tudo que me acontece. Seja essa a razão, ou outras quaisquer, o fato é que me vejo em estado de espera. Há muito coleciono expectativas quanto a cada fase da minha vida, alimentando-as na crença inocente de que são apenas um vislumbre do que cada uma trará consigo. Tê-las tão vívidas trouxe certa paralisia pela compreensão do amontoado de possibilidades que não verão a luz dos meus dias. Já dizia Dalí: so little of what could happen does happen (em tradução livre: tão pouco do que poderia acontecer acontece). Queria eu ter prestado mais atenção a essas palavrinhas para evitar tamanha confusão. 
   Percebi, sentada naquele ônibus lotado de fim de tarde, que estou constantemente em busca do momento em que minha vida deixe de ser um planejamento do que ainda não aconteceu, para ser o momento presente ao qual não dedico minha atenção. Priorizar o amanhã tem se mostrado incompatível com experienciar a graça e a beleza dos momentos que estão bem debaixo do meu nariz. Tenho escolhido uma vida que nem chegou em detrimento da que tenho em mãos, pela necessidade de garantir um futuro que desconheço sem, entretanto, fortalecer minhas raízes no hoje. Quero mais do que é possível obter pela vivência de uma dia por vez e isso me deixa angustiada.
   Ter tal questionamento como cerne da aflição que sinto trouxe um alerta quanto aos erros cometidos na condução das minhas expectativas e ambições. De que me vale ter o futuro em curso, quando meu presente se perde em dias de dúvidas? De que me vale a promessa de um tempo ao qual ainda não tenho acesso, quando deixo ir aquele que me rodeia? Tais indagações só ressaltam a certeza de que não é possível retroceder, de que só posso moldar o tempo que tenho à frente e que é preciso fazê-lo valer.
   Com essa constatação, que em primeiro momento pode parecer óbvia se a consciência dessa verdade já integra os teus dias, vejo que a solução pode ser mais simples do que eu imaginava. Frequentemente identificar o problema, assumi-lo, é a parte mais difícil. Uma vez que reconhecemos o monstro contra o qual tão intensamente duelamos, vencê-lo é apenas mais um degrau da escada a subir. Eu, que sou excessivamente questionadora e sempre penso demais, preciso desacelerar. Um tanto a menos de afobação por desvendar o que não sei e pressa para conhecer os desdobramentos dos meus esforços, somados a porções extras de desapego da necessidade por controlar cada etapa, são a saída para ter a tranquilidade que me foge. Para que sejamos mais leves é imprescindível o entendimento de que dúvidas compõe o curso de amadurecimento e que não ter todas as respostas só atesta a nossa humanidade.
   Como tudo na vida, isso é um processo. Somos seres de hábitos e mudar sempre traz turbulências. É preciso disposição e entrega para abrir mão do que nos vestiu em prol do que melhor nos serve, mas o que seríamos sem o aprimoramento contínuo de nós mesmos? Ainda há muito a fazer para incorporar essa conclusão aos meus dias, mas ter tê-la frente à insatisfação crescente que me fazia refém vale cada segundo da tarefa de atualizar essas estruturas consolidadas. 

(imagem: Pinterest)
Jella

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De novo, uma vez mais | #1

"Quando eu era pequena, minha família criava galinhas. Sempre tínhamos em casa mais ou menos uma dúzia dessas aves e, sempre que uma delas morria [...], meu pai substituía a galinha perdida. [...] O problema é que você precisa tomar muito cuidado ao introduzir uma galinha nova ao galinheiro. Não pode simplesmente jogá-la lá dentro com as galinhas mais velhas, ou estas a verão como invasora. O que você precisa fazer, isso sim, é colocar a nova ave dentro do galinheiro no meio da noite, enquanto as outras estiverem dormindo. Ponha-a em um poleiro ao lado das outras e saia de fininho. Pela manhã, quando as galinhas acordam, elas não reparam na recém-chegada e pensam apenas: 'ela já devia estar aqui, já que não a vi chegar.' O melhor é que, ao acordar com as novas companheiras, a própria recém-chegada sequer se lembra de que é recém-chegada e pensa apenas: 'eu já devia estar aqui antes...'" (Comer, rezar e amar, página 128)

   É assim que Elizabeth Gilbert descreve sua chegada à Índia em Comer, rezar e amar (livro que é um dos meus favoritos!) e, como ela, decido que a abordagem mais adequada para retomar esse cantinho que tanto amo é surgir na calada da noite, inesperada, com um textinho publicado sem quaisquer anúncios ou antecipações. 
   Blogs fazem parte da minha vida desde o momento em que descobri essa possibilidade na internet: a ideia de ter um espaço dedicado a textos meus, em que eu pudesse extravasar sentimentos e registrar momentos me atraiu desde os primeiros links. De lá pra cá tive uns tantos: de nichos específicos a assuntos mais gerais, sempre buscando expressar melhor minhas ideias em publicações que falassem com quem lia tanto quanto cada linha dialogava comigo
   O Leia-se Jella surgiu no momento em que eu percebi que havia quem se interessasse pelo que eu tinha a dizer. Quando algumas das minhas histórias, monólogos ou parcas reflexões tocavam outras pessoas, gerando trocas e interação, eu quis mais dessa conexão. Em 2014, quando concretizei essa vontade e publiquei meu primeiro post por aqui, o número de blogs pessoais crescia exponencialmente internet afora e na busca por fazer parte de um grupo em crescente consolidação, muito dos objetivos iniciais desse meu cantinho se perderam. Foram necessários alguns anos, muitas mudanças em mim e um ajuste severo de perspectivas para que eu percebesse a beleza de falar sobre o que me cabe e me encanta sem necessariamente pertencer. Fazer parte apela ao social que somos, mas resgatar a graça de ser individual tem sido fundamental para mim.
   Pensando nisso, e em um tanto de aprendizados que venho acumulando, decidi que era hora de tirar da gaveta o projeto inacabado que esse blog tem sido em nome de dar a ele as funções que sempre foram suas principais: desafogar os meus anseios e alimentar os meus desejos. Crente de que nada nesse mundo funciona sem doses significativas de empenho, desafiei a mim mesma nesse retorno: a partir da madrugada silenciosa de hoje, pelos próximos trezentos e sessenta e quatro dias, eu contarei aqui um pouco do que me enche a cabeça. Não tenho ordem estabelecida, cronograma programado, ou qualquer planejamento fixo, porque me sei incapaz de seguir cegamente calendários preenchidos a longo prazo. Apesar do desarranjo, posso prometer desde já muita literatura, porção extra de sentimentos e uma coleção de banalidades (sobre as quais adoro divagar). 
   Como sou incapaz de conter expectativas, digo aqui que elas existem e crescem à medida em que digito cada letrinha. Expectativas essas que comportam (e misturam) a animação por, enfim, riscar esse início da lista de afazeres, a avidez por um ano de textos a aprimorar e a curiosidade por tantas produções vindouras. Há muito pouco que se possa prever em um projeto tão longo quanto esse, mas acredito - com tudo que tenho - que os resultados serão ainda mais positivos do que tenho me permitido imaginar... (que assim seja!)

Jella
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Dia de amar não é todo dia? | #maisamorporfavor

   Junho chegou e com ele vem, inevitavelmente, o dia dos namorados. Dia de trocar presentes, afetos, carinhos. Dia de sair, de rir, de relembrar os bons momentos. Dia de escrever cartas, dar as mãos, sonhar com o futuro, fazer planos. Dia de pensar sobre o que foi feito, o que mudou, de viver o sentimento. Dia de amar?
   Amor... Uma palavra tão pequena, uma abstração gigante. Que é um sentimento desses que fogem às palavras, ok, todos sabemos. Explicar é tão difícil... Talvez por isso, a banalização seja tão grande. Somos seres de instantes, uma geração de curtos momentos. O que era a poucos segundos, agora já pode ser atualizado, renovado, melhorado. Infelizmente, as relações acabaram sofrendo upgrades também. Como acontece com alguns softwares, essa atualização acabou bagunçado tudo
   Não é segredo pra ninguém que o dia dos namorados é uma jogada de marketing, criada para movimentar o comércio e aumentar o número de vendas, incentivar que mostremos o nosso amor através de presentes, bens materiais, sempre frisando que tais atos são os reais demonstrativos do que se passa no coração e na cabeça. 
   Pois bem, não é o que eu acho.
   Presentear, sair para jantar, andar de mãos dadas, escrever cartas... Por que não todos os dias? Por que não sem data definida? Por que não ontem, mês que vem ou no próximo domingo? Por que dia doze? Por que nos tornamos reféns da data? Somos criadores de imagem, sempre mais preocupados em passá-la e mantê-la do que em realmente viver em nome do que representamos. De uns tempos pra cá, declarações nas redes sociais são cada vez mais comuns. Textos gigantes em dias específicos, como que apenas para mostrar ao mundo a felicidade que nos rodeia, que nos cerca, que nos consome, quando muitas vezes é tudo apenas isso: imagem. Por quê? 
   Sinto, honestamente, que o dia dos namorados e a celebração do amor já foram muito mais sinceras - quando corações batiam em falso e as mãos suavam, sem que fossem necessárias demonstrações grandiosas, exuberantes. O amor já foi tão mais simples, tão mais humilde... E, arrisco dizer, mais bonito. Mais bonito porque a única intenção, a única preocupação era amar. Amar por vontade de sentir; amar para contagiar; amar por querer perto; amar por não caber em si mesmo.
   E a grande verdade é que amor é só isso (ou tudo isso?): algo tão intimidador, grandioso e inexplicável que não cabe no peito. Um baita clichê, do qual é impossível fugir. Amor é entrega, é aceitação, é aprendizado; é saber que não existe perfeição e abraçar a ideia com graça e sutileza, não por obrigação, mas por vontade. Amor, ao contrário do que presumem as grandes massas, não quer dizer sorrisos de orelha a orelha todas as horas de todos os dias, mas sim querer que todos os dias sejam assim só por estar com quem se ama.
   Amor não é da boca para fora. Não dá pra sentir e fingir que não, assim como não dá pra não sentir e dizer que sim. Amor transcende. Por isso, nesse dia dos namorados, antes de presentes e grandes demonstrações, procure lembrar de todas as razões que fazem de ti um(a) apaixonado(a). O que exatamente foi que te cativou a querer estar junto? A querer compartilhar? O que te inspira a respeito de quem está contigo? Por que é que, entre tantas pessoas nesse mundo, foi essa a que tu escolheu para dividir a vida e o cotidiano? A gente faz do amor um bicho de sete cabeças, quando na verdade ele está escondido nas pequenas coisas, nos pequenos detalhes, nas coisas que quase passam despercebidas. A gente não ama alguém pelos presentes que ela nos dá, ou pelos lugares aos quais ela nos leva. A gente ama alguém pelo modo como ela nos olha, pelo modo como nos faz sentir, pelo modo como ela nos faz querer ser melhores. 
   Que nesse dia dos namorados lembremos disso acima de tudo, porque antes de ser o dia da troca de presentes, dia doze é dia de amar com tudo que se pode. Felizes dos casais que conseguem viver esse sentimento com tamanha plenitude.

Jella 
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Dia das mães e as razões pelas quais eu não poderia deixar de ser (realmente) filha da mãe que tenho

   O dia das mães acaba de acabar. 
   Duas horinhas atrás era o dia dela: da pessoa que te assiste desde os primeiros passos, primeiras palavras primeiros gestos e tentativas de comunicação e entendimento desse mundo doido. Duas horinhas atrás era dia de celebrar a importância e essencialidade dessa mulher na vida de cada um de nós. Duas horinhas atrás era o dia de entregar presentes, mimar e agradecer. Duas horinhas atrás era dia da pessoa mais importante na vida de qualquer ser humano.
   Não sei como é ser mãe (ainda sou nova demais para tal feito), mas imagino que não deva ser fácil. Educar, entender e aturar - sim, aturar, porque só nós sabemos quanto conseguimos ser pouco tolerantes (por vezes insuportáveis) com elas - uma pessoa completamente dependente de ti e dos teus ensinamentos... Uma responsabilidade e tanto! 
   Minha mãe, por sua vez, sabe bem como é ser filha. Já foi um dia uma com a minha idade, hoje é outra - mais madura e consciente. Apesar das diferenças entre meu tempo como filha e o dela, ainda assim há muito em comum entre nós - mais até do que (principalmente quando brigamos) queremos admitir. Como confirmam os ditados populares por aí: filho de peixe, peixinho é; e, bem, eu não poderia deixar de ser filha da minha mãe.
   Somos ambas de um nível de teimosia que, como se pode imaginar, acaba sempre em concordância, admiração ou guerra. Somos ambas tão sonhadoras que, como é de se esperar, há sempre algo mais a conquistar. Somos ambas de gostos tão parecidos e peculiares que, como se deve acreditar, muitas vezes não sabemos se desgostamos tanto porque realmente não agrada, ou porque agrada demais. Somos ambas um misto bem doido de coisas uma da outra. Isso, claro, sem mencionar as semelhanças físicas... Essa lista conta com sardas, cabelos rebeldes, boca grande, olhos pequenos, bochechas salientes, nariz arrebitado e por aí vai (se realmente enumerar todas elas, falta espaço e característica).
   Como mãe, há muito nela que não vejo em mim - e acredite você - gostaria de ser. Determinação, sinceridade e perspectiva são algumas delas. Quem dera um dia eu ser tal qual ela. Em dado momento da vida, passados os anos de dependência da infância e os de rebeldia da adolescência chega, sorrateiramente, a época em que não há como se olhar no espelho sem ver traços dela, não há como não encontrar semelhanças cotidianas nos gostos, atitudes e trejeitos, não há como não desejar um abraço e um beijo de boa noite. A gente cresce e, embora busque por independência e caminhos próprios, acaba se tornando mais necessitado ainda dos afagos e afetos da mãe que nos criou, ama e com quem tanto divergimos.
   Ah, as divergências! Obviamente que nem tudo são flores. Convivência é sempre complicada, não importa quem seja a pessoa com quem se convive: por que com as mães seria diferente? Todos os dias, de todas as semanas, de todos os meses, de todos os anos... É muito tempo convivendo! Brigamos (e como brigamos!): eu e minha mãe vivemos mais em pé de guerra que em tempos de paz e por mais louco que isso seja - e por pior que pareça - funcionamos assim. Somos seres de opiniões tão fortes e tão convictas do que pensamos que, inevitavelmente, há discussão e desencontro de ideias. Diversas são as situações que levam a isso - personalidades fortes, opiniões contrastantes, mau entendidos, uma visão diferente de mundo -, mas não me importo. Gosto de discutir com quem sabe argumentar e minha mãe é dessas. A verdade é que com uma tarefa tão árdua quanto tornar alguém um ser humano decente, em meio a essa realidade caótica, eu não acho errado que ela brigue comigo e tente mostrar outras formas de fazer das coisas, certas. Admiro o fato, de mesmo com tantas desavenças, nunca desistir de mim.
   Minha mãe foi - e é - desde que me conheço por gente pai e mãe. Sempre colocando os filhos e suas necessidades acima das suas próprias, sempre fazendo o máximo possível - por vezes mais que isso - para que não falte nada, não existam problemas ou situações desconfortáveis. Minha mãe é uma daquelas que quer saber onde vai, com quem e quando volta: tim tim por tim tim. Minha mãe é daquelas que não suporta que os filhos sejam levianos ou mal educados. Minha mãe é daquelas que - mesmo com seu mundo despedaçando - ainda consegue oferecer um conselho sábio e objetivo e um colo nas situações de maior fragilidade. 
   Só tenho a dizer, após toda essa introdução, que sou grata por ter a mãe que tenho - e sim, muito apaixonada por ela (paixão dessas de amores arrebatadores). Há religiões que acreditam que antes de nascer somos nós os responsáveis por escolher as mães que nos carregarão e educarão nessa terra; uma escolha arbitrária e pessoal. Devo dizer que nunca na vida achei que tivesse tão bom gosto. É como mencionei ali em cima: se um dia eu for metade da mãe e mulher que a minha é, bem, serei realizada como pessoa.

Beijos,









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